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Atitudes transformam realidades
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Com a Palavra: Antonio Geraldo Sá Barreto, abordando as Representações Sociais e (in) Visibilidades no Brasil Contemporâneo.

Com a Palavra: Antonio Geraldo Sá Barreto, abordando as Representações Sociais e (in) Visibilidades no Brasil Contemporâneo. Antonio Geraldo Sá Barreto, Licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e mestre em Educação e Contemporaneidade pela UNEB, professor efetivo da Secretaria de Educação do Estado da Bahia (SEC), professor efetivo da UNEB e Assessor Técnico da Fundação José Carvalho, além de dedicar-se a pesquisas no campo das representações sociais, formação e práxis docente, educação contemporânea.
Em 10/09/2019

ASJ - Segundo Moscovici, autor muito citado em sua dissertação, e referência nos estudos em representações sociais, "a finalidade de todas as representações é tornar familiar algo não-familiar". Diante dessa afirmativa, você acredita que integrantes de grupos sociais, como o LGBT+, o Negro, o Feminista são aceitos pela sociedade contemporânea com familiaridade ou continuam sendo rejeitados e conseguem na verdade manterem-se no meio social somente pelas leis que os asseguram hoje, mas não pela aceitação irrestrita das pessoas?


Antonio Geraldo S.Barreto- O movimento da aceitação requer o exercício da alteridade, ou seja, uma atitude de reconhecer o Outro em sua subjetividade e, portanto, diferente de todos ao passo em que seja reconhecida a sua dignidade enquanto direito fundante. Contudo, esses grupos sociais, nomeados por Moscovici como minorias ativas - conceituados não por uma perspectiva numérica, mas pela denegação arbitrada a partir de sua singularidade que os provocam a mobilizarem-se em estratégias para a defesa de suas marcas subjetivas e a conquista do direito de ser - ainda são olhados por muitas pessoas com o estranhamento ante os marcadores sociais tecidos a partir do enlace entre sua constituição psíquica e a sua imersão no contexto da sociedade. Assim, decorre não uma aceitação irrestrita, mas uma tolerância à  presença desses sujeitos nas diversas esferas da sociedade, entretanto, há uma rejeição ante seus marcadores sociais, submetendo-os incessantemente ao estranhamento, o que nos permite inferir que, não raro, o consentimento à  inserção das minorias nos diferentes cenários da vida de relação promove-se, equivocadamente, à  guisa de atendimento ao impositivo legal ou de benesse que, em última análise expressão de preconceito, posto que um sujeito considera-se suficientemente acima do outro, para decidir pela sua (in)aceitação no tecido social.


ASJ - Para ocorrer essa transmutação do não-familiar para o familiar, é necessário que ocorram dois processos, que são a ancoragem e a objetivação. Vamos nos ater na objetivação, que você define como uma inscrição do social nas representações. Que tipo de inscrição, de imagem e identidade esses grupos que mencionamos anteriormente, em sua opinião, conseguiram inscrever no tecido social?


Antonio Geraldo S. Barreto- O processo de objetivação funda-se na transformação de algo abstrato em concreto, tomado por essência a linguagem que, por sua vez alicerça-se no real, simbólico e imaginário. Tomaremos aqui, o aspecto imaginário: todos criamos desenhos mentais a partir da escuta de uma palavra e, muitas vezes, exteriorizamos essas imagens a partir de discursos baseados em preconceitos. Nesse sentido, a presença desses grupos no tecido social, não como atores aos quais são relegados papéis de coadjuvância, mas na condição de autores de si, evoca um contraste entre o imaginário e o real. Assim, a inscrição, a imagem e a identidade tecidas na sociedade advém do (re)conhecimento do direito nato de ser no tecido social e do quão os pares constituem-se na atitude de aceitação à  diversidade. Somente cônscios desse jogo de forças, os integrantes das minorias ativas conseguem constituir sua identidade no grupo, caso contrário a imersão na sociedade implicará em apagamento intersubjetivo daqueles e daquelas que, na ânsia de serem aceitos, abdicam de aspectos de sua constituição, exemplo da textura dos cabelos, no caso dos negros, a expressão do gênero, no caso de homossexuais.


ASJ - "Representações são reconstruções da realidade", segundo Moscovici. Você acredita que a realidade reconstruída por esses grupos antes invisibilizados e hoje pertencentes a uma realidade de visibilidade, é um fenômeno que traz soluções ou problemas para eles? Tornar-se tão visível não seria tornar-se mais vulnerável às diversas formas de violência que podem configurar-se tanto como virtual quanto física?


Antonio Geraldo S. Barreto -Sem dúvidas, o fenômeno de fazer-se visível reverbera em problema ao provocar, nos sujeitos que buscam a hegemonia de seu habitus, a repulsa que lhes mobiliza para a prática de atos de violência simbólica, virtual, verbal ou física no intuito de coagir os antes invisíveis a voltarem a sua condição de apagamento que oferece ao agressor a ilusão hegemônica. Porém, a visibilidade carece ser compreendida, metaforicamente como um caminho e não como um destino. Desse modo, o sujeito faz-se visível à  medida que se permite ser em sua constituição subjetiva e possibilidade o emergir da subjetividade na vida de relação, caso contrário sofrerá a angústia da cisão entre o ser e o mostra-se além disso, cumpre falar que outro aspecto positivo de visibilizar-se é a provocação à  revisão das concepções que impulsionam a sociedade ao crescimento da experiência no campo dos valores éticos, tomada a alteridade como premissa elementar de toda relação inter e transpessoal.


ASJ - O saudoso Zygmunt Bauman fala dos estranhos da sociedade, que você equipara aos invisíveis, ou seja, pessoas que não se encaixam no "mapa estético, moral e cognitivo" do mundo. Sobre especificamente o mapa estético, você enxerga uma mudança de paradigma da indústria da moda em relação ao olhar lançado sobre os sujeitos antes marginalizados, como os homossexuais, transexuais, negros? Eles estão mais presentes, fazem parte da estética do contexto social contemporâneo ou continuam invisíveis?


Antonio Geraldo S. Barreto -  É fato inconteste que a indústria da moda, na contemporaneidade, tem lançado olhares para aqueles para os quais antes ela mantinha eclipsado o olhar, fazendo-os presentes. Contudo, precisamos ter cuidado ao cogitar que isso implica em sua inscrição na estética do mundo, pois há dois motivos plausíveis para esse apurar a visão da indústria da moda: a sensibilidade ao reconhecimento do direito desses grupos a transitarem na seara do consumo, por meio da aquisição e do uso de bens que expressam seus marcadores sociais ou; a percepção de um filão de mercado cuja ânsia de desfrutar do que vem em sinergia à  sua subjetividade, dispõe-se a gastar grandes somas, o que se assemelha a trazer à  visibilidade esses sujeitos para, então, cobri-los com um véu: o desejo de vender.


ASJ - A invisibilidade está no impedimento de poder falar, na impossibilidade de ser escutado (a). Hoje, com a existência freneticamente atuante das redes sociais, os grupos, movimentos sociais conseguem mostra-se com mais facilidade, conseguem adquirir uma visibilidade social dentro de suas narrativas e lutas? Ou o grande contingente de fala no mundo virtual gera um novo tipo de invisibilidade, do poder ser escutado?


Antonio Geraldo S. Barreto- Consideradas as possibilidades de expressão imagética e de fala que as redes sociais promovem, notamos uma conquista de visibilidade pelos outrora silenciados e apagados que, inclusive obtêm um alcance imensurável, haja vista a diluição de fronteiras que a virtualidade provoca e a proteção auferida pela natureza das relações construídas nas redes: em um clique nos conectamos ou desconectamos do outro. Entretanto, a sensação de segurança proporcionada pela tela dos dispositivos, a guisa de muralha, tem reverberado na expressão incontida e irrefletida de muitos, produzindo um volume de informações que, humanamente é impossível processar aliada à  velocidade em que os fatos se fazem notórios ou irrelevantes. Isto posto, percebemos assim como nas redes concretas de relacionamento, um olhar seletivo, no mundo virtual em que muitos desejam fazerem-se visíveis e, nesse ímpeto, invisibilizam outros tantos à  medida em que falam sem disporem-se a escutar, mostram-se sem disporem-se a olhar.


ASJ - Você trata da (in)visibilidade no seu estudo especificamente na sala de aula. Ampliamos nossa discussão até o momento para as representações sociais e a (in)visibilidade sob o contexto social, nos expandindo para além da sala de aula. Mas agora, focando nesta, que tipo de educação vem sendo construída na contemporaneidade? Trata-se de uma educação que contribui para a formação de sujeito crítico, visível e capaz de transformar para melhor as realidades do país? Ou não existe a preocupação na formação desse sujeito crítico?


Antonio Geraldo S. Barreto- Para falar de educação contemporânea, é salutar brevemente situar a contemporaneidade para além de fenômeno cronológico é construto atemporal, podendo ser simbolizado em movimento constante de estar por inteiro no agora sem denegar de idas ao ontem, nem deixar de projetar-se para o amanhã, buscando a cada tempo, a cada movimento aquilo que nos constitui na superação das cisões. Assim, a educação na contemporaneidade não pode limitar-se a tudo responder, ela precisa expandir-se a mediar a construção das perguntas fundantes, entretanto, presenciamos mudanças curriculares desconectadas das questões inerentes ao complexo mundo das relações, algumas em tese comprometidas com a constituição de um sujeito crítico, porém sua operacionalização traz furos que inviabilizam esse processo de onde decorre uma (de)formação dos sujeitos que adentram as escolas por desejo de saber e saem delas frustrados, pois os conhecimentos não respondem à s suas perguntas, ou não lhe possibilitam fazer as perguntas acertadas ante o imperativo de investigar os problemas sociais. Algumas iniciativas no campo da práxis pedagógica pode ser configurada enquanto educação contemporânea à  medida que os autores/atores implicados no ensinar e aprender transcendem o tempo presente, ora reconfigurando práticas do ontem, ora trazendo o ineditismo do amanhã, sem contudo, deixar de olhar para a tríade que constitui o ato educativo: saber, professor e aluno. Somente ao se estabelecer diálogo entre esses se consegue fundar a constituição do sujeito critico, pois ele assim o é, quando instaura a escuta de si, do Outro e do saber.


ASJ - A dialogicidade é um aspecto importante quando se discute visibilidade e representação social. O atual cenário político do Brasil, por não dialogar com os grupos que tiveram suas narrativas sufocadas por muito tempo e que agora protagonizam nos cenários sociopolítico, socioeconômico, é uma ameaça às visibilidades conquistadas? Será capaz de invisibilizá-las?


Antonio Geraldo S. Barreto- Todos que desejamos falar e ser escutados experimentamos tempos de desassossego na atual conjuntura política do Brasil, nos percebendo em meio a um fenômeno que nos invisibiliza, pois constatamos que os discursos dos representantes do desgoverno quer seja nos meios oficiais, quer seja nos meios de comunicação midiática e as atitudes instituídas no âmbito da legislação vêm instaurando uma invisibilidade dos grupos à  medida que: tentam patologizar ou demonizar marcas subjetivas, a exemplo da homoafetividade; buscam culpabilizar vítimas que sofrem violências por questões de gênero, como mulheres que, supostamente, são violentadas por usarem roupas que provocam desejos nos homens; retiram direitos voltados a grupos historicamente massacrados, a saber a redução de recursos voltados ao ingresso de negros e pobres nas universidades. Assim, percebe-se um monólogo instituído no qual retira-se de muitos a possibilidade de serem escutados na tessitura dos discursos governamentais e nas políticas públicas implementadas o que, inclusive nos provoca a afirmar que se faz necessária uma revisão das adjetivações, pois os discursos tomam premissas do fundamentalismo religioso e as políticas voltam-se ao atendimento dos interesses do empresariado brasileiro.