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A que Narrativa você pertence?

A que Narrativa você pertence? Maíra Bahia, bacharel em Comunicação Social/Publicidade; pós graduanda em Projetos Sociais e Direitos Humanos (UNIFACS),pesquisadora e defensora dos Direitos Humanos, pesquisadora no Grupo de estudo e pesquisa de práticas e de produtos discursivos da cultura midiática (FACOM/UFBA),pesquisadora e palestrante sobre consumo responsável, poetisa social, idealizadora do Atitude Social Já.
Em 16/09/2019

Sempre existiram duas narrativas na sociedade brasileira, no entanto uma delas construiu fortes pilares que suplantaram a outra, fazendo-se assim a existência de opressores e oprimidos, discursos reverberados e discursos silenciados. Essa sociedade, séculos após o surgimento das suas narrativas, continua alimentando pilares paradoxais, que com toda a disparidade que carregam entre si, tentam, nos dias hodiernos, conviver lado a lado, apropriando-se da tolerância para não causar rachaduras ainda mais profundas em suas estruturas sociais. Os pilares que se sustentam desde a era colonial, ergueram narrativas epistemologicamente homogêneas de uma ética eurocêntrica, ética que marginaliza grupos tidos como os estranhos para compor a "civilização". Outros pilares que existem também desde a era colonial, mas que ergueram-se dificilmente através de lutas e resistências, em meio à s rachaduras emocionais que sofreram ao longo das suas árduas edificações e identidades invisibilizadas, caracterizam os grupos historicamente marginalizados pelos detentores das narrativas homogêneas; eles são os índios, que foram tratados como selvagens incapazes de pertencerem a uma sociedade civilizada; eles são os negros, que foram animalizados pelos senhores do poder, as pretas estrupadas para a satisfação do gozo senhoril; são os homossexuais e transgênero, esses sujeitos da estética imoral dentro de uma sociedade puritana, que segue o comportamento bíblico de Adão e Eva como o casal normativamente ético, numa humanidade que deve ser hetero. 
 O que se vive na atualidade é a tolerância de convivência entre as narrativas edificadas ao longo da história. Tratamos tolerância como sinônimo de suportar a presença da outra, do outro e não repeitar e conviver harmonicamente com a outra, o outro. A narrativa da hegemonia, detentora dos discursos que imperaram por séculos, hoje depara-se com as narrativas,atualmente ativas, que sempre existiram, mas ficaram invisibilizadas, sufocadas nos becos, nas senzalas, nas matas da história por longo tempo. A divisão das narrativas ficaram explícitas no cenário político do último processo eleitoral para a presidência do Brasil. Elas se manifestaram com clareza; e de um lado, posicionaram-se os descendentes das narrativas coloniais que pregam a homogeneidade do discurso ético normativo, dos que defendem o casal Adão e Eva como o modelo perfeito de relacionamento amoroso, que defendem uma estética europeia numa nação que tem os índios como primeira população e que possui atualmente uma população preta e parda que somadas, ultrapassa a população branca. Os detentores dessa narrativa caracterizam-se como os sujeitos que pregam uma ideologia conservadora. Do outro lado, posicionaram-se as vozes interrompidas pelos processos dominantes do poder sociocultural e sociopolítico. Essas vozes que foram sendo construídas através dos discursos pautados na liberdade, na igualdade social, que saíram dos bastidores e vêm conquistando seus palcos, seus "lugares de fala", como defende Djamila Ribeiro¹; que com suas experiências e dores vem "descolonizando o conhecimento", dentro do mundo acadêmico e literário, como aponta Grada Kilomba²; conhecimento esse que por séculos foi construído na fala unilateral de um grupo, o dos opressores. As vozes invisibilizadas que hoje ganham, cada vez mais a representação social de sujeitos e não de objetos, caracterizam-se como os sujeitos que defendem uma ideologia democrática, em todos os sentidos do seu conceito.
 A arena que abriga a disputa entre ideologias conservadoras e democráticas, produz sujeitos que defendem de um lado, a homofobia, a misoginia, o racismo, a invasão tecnológica do agronegócio em terras indígenas e quilombolas, e do outro, a que defende respectivamente, a liberdade do movimento LGBT+, o empoderamento e emancipação total das mulheres, a valorização da luta negra, a preservação da natureza e do ser humano. Esses são dois campos ideológicos completamente distintos, que precisam conviver no mesmo espaço/tempo, e para isso, relacionam-se cultivando a tolerância, o suportamento, para não rachar ainda mais as estruturas humanitariamente construídas, estruturas estas que ainda necessitam solidificarem-se como axiomas imprescindíveis para uma sociedade justa, equânime, enfim, democrática. Lamentavelmente, o surgimento de comportamentos intolerantes maculam o cenário sadio que tenta se estruturar no convívio social. Como aponta Maria Luiza Tucci Carneiro³, "infelizmente não conseguimos adentrar o século XXI ilesos de fobias construídas pelos inimigos da democracia". No Brasil, o quadro das fobias nos coloca em rankins de cultivo ao ódio, de forma alarmante. Segundo a Ong Global Witness, o Brasil está entre os quatro líderes globais em homicídios de ativistas dos direitos humanos e ambientais. Em 2018, houve, ao menos, 20 assassinatos de ativistas no país. Segundo o Atlas da Violência, 75% dos homicídios do Brasil são de pessoas negras. Quanto a estatística de homicídios de homossexuais, no Brasil, a cada 16 horas, morre uma vítima de homofobia, segundo o GGB (Grupo Gay da Bahia). O Brasil é o país que mais assassina gays. Outra estatística perturbadora, sãos os números de violência contra a mulher. Segundo a BBC News/ Brasil (matéria escrita por Luiza Franco, fevereiro/2019), em 12 meses, "1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil". Esses são dados de um país, cujo sistema político é a democracia, um sistema que "não reduz o ser humano a ser apenas cidadão; reconhece-o como um indivíduo livre que também faz parte de coletividades econômicas e culturais", segundo Alain Touraine em seu livro O Que é democracia?;que também postula o respeito como  o alicerce da democracia. 
O respeito, se realmente implantado em uma sociedade, anula a presença das fobias, que infelizmente é uma realidade e nos coloca em estatísticas que estampam o ódio e a intolerância, a não aceitação do outro, da outra, da convivência harmônica com a diversidade cultural, étnica, de gênero. Infelizmente, a liberdade de escolha, um dos valores da democracia, "não implica a anulação das práticas intolerantes. Ao contrário, "abre espaço para novas formulações racistas", segundo Maria Luiza Carneiro. As liberdades das escolhas de amar alguém do mesmo sexo, de ser o sujeito da palavra e não o objeto mistificado, de ser a comunidade liberta dos sistemas dominantes, de ser a empoderada de decisões e novos status, incomodam as narrativas conservadoras, e tais liberdades reformulam novos preconceitos, novos racismos. (aqui tratamos o racismo, não como preconceito a raças, mas preconceito a manifestações culturalistas) As narrativas conservadoras alimentam discursos preconceituosos, carregam a visão de que a sociedade não deve permitir-se a outras formas de comportamentos, a metamorfoses que trazem as escolhas individuais em si e manifestam-se de várias formas. Essas narrativas motivam a formulação de novos preconceitos, racismos, de intolerâncias religiosas, políticas, sociais. Quando esse tipo de discurso é produzido por grupos e lideranças políticas, a sociedade sente as rachaduras profundas em suas estruturas, vê serem assassinadas as leis que foram conquistadas através das vozes insistentes daqueles que viram-se calados por longo período de tempo, sente a carta magna, lei fundamental dos pilares da cidadania, ser suplantada por medidas que ferem a própria dignidade e vida humana. 
 O apoio a grupos caracteriza a identidade dos sujeitos, afinal ninguém se adere a uma ideologia sem possuir algum tipo de afinidade com ela, ninguém se torna séquito e/ou eleitor(a) de alguma figura política sem encontrar-se de alguma maneira em suas colocações e discursos. O Brasil, no último sufrágio, viu-se dividido ainda mais entre as duas narrativas, a conservadora e a democrática; assistiu a revelação dos preconceitos camuflados, o desvelamento dos ódios mantidos em segredo e pôde perceber que muitos suportam as relações de convivência. Alguns deixaram claro que são tolerantes porque o sistema de civilização que eles próprios criaram exige que sejam éticos  e porque existem leis punitivas; outros passam por cima da própria criação ética e explicitam seus ódios nas redes sociais com agressões verbais de racismo e através de agressões físicas contra os que ferem o sistema da narrativa homogênea. Diante dos pilares erguidos, cada qual com suas narrativas próprias, é importante que os sujeitos saibam a  que narrativa  pertence, de que narrativa descende e  que narrativas deseja construir para as gerações futuras. Se uma narrativa pautada no conservadorismo viril, de opressões e coerções ou uma narrativa que respeita e liberta
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¹Ribeiro, Djamila. Lugar de Fala. São Paulo: Sueli Carneiro;Pólen,2019.112p (Feminismos Plurais/coordenação Djamila Ribeiro)
²Kilomba, Grada,1968.Memórias da plantação-Episódios de racismo cotidiano/Grada Kilomba; tradução Jess Oliveira. 1.ed,-Rio de Janeiro: Cabogó,2019. 
³Carneiro, Maria Luiza Tucci. A tolerância como virtude. In: Revista USP. São Paulo,n.69,p.6-13,março/maio 2006