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Amanda Brito - Barreiras arquitetônicas e atitudinais: os desafios da Pessoa com Deficiência.

 Amanda Brito - Barreiras arquitetônicas e atitudinais: os desafios da Pessoa com Deficiência. Administradora e Especialista em Gestão Empresarial e em Educação, atua há mais de nove anos conduzindo processos de Gestão Estratégica de Pessoas, Gestão de Carreira e Desenvolvimento Humano, além de já ter coordenado grupos de trabalho sobre Equidade em ambientes corporativos. Apaixonada por transformação de pessoas, possui formação em Coaching Executivo e Life Coaching, em curso credenciado pelo ICF, e em Practitioner em PNL. Também ministra palestras e tem experiência facilitando processos em Grupos. Baiana radicada no Rio, e viajante nas horas vagas, seus pés não sabem andar nem ficar quietos
Em 11/10/2019

ASJ - A Lei da Acessibilidade é nova, só tem dezenove anos. Você, nesse caso, tem uma etapa da sua vida sem a lei e uma etapa convivendo com ela. Você acredita que hoje, a Lei da Acessibilidade já conseguiu alcançar patamares significativos e é realmente praticada ou ainda necessita ser aplicada com mais êxito?


Amanda Brito - Conheço várias cidades do Brasil e posso dizer que a minha experiência mostra que estamos longe de atender ao que reza a Lei. Em um momento que deveríamos estar avançando em questões relacionadas a ocupação dos espaços de fala e de poder, a principal pauta ainda engloba as ruas esburacadas, com a precariedade dos transportes públicos acessíveis e com a construção de rampas, banheiros adaptados e elevadores.


ASJ - Tivemos na sociedade ganhos quanto as barreiras arquitetônica, urbanística, tecnológica nos transportes, nas comunicações. Hoje em dia é possível se verificar uma acessibilidade mais próxima das pessoas com deficiência e mais presente nos espaços públicos. Mas em sua fala você aponta uma barreira, que seja talvez a mais complicada para ser rompida, a barreira atitudinal. Como é lidar com o olhar preconceituoso do outro? Essa barreira pesa mais que as demais?


Amanda Brito - Sem dúvidas a barreira atitudinal tem um peso maior do que todas as outras. Geralmente, tal barreira deriva em dois tipos de comportamentos: o de segregar ou de infantilizar. Muitas vezes eu estou acompanhada e alguém vem me atender e fala diretamente com quem está comigo, ainda que o pedido seja meu. Eu sempre “brinco” dizendo: olha, eu não sei andar, mas sei falar. Pode perguntar para mim.

Mas, existem situações mais extremas, em que as barreiras atitudinais se tornam catalisadores para o desrespeito ao princípio constitucional do valor social do trabalho, por exemplo. É o momento que o preconceito se transforma em discriminação. Durante a minha Graduação, fui reprovada em todos os processos seletivos para inserção no mercado formal de trabalho. Essa é uma das faces da desigualdade no nosso país.


ASJ - Ao ouvi-la na semana passada em um evento, me assustei com uma estatística que você revelou. Você diz que sempre lança a pergunta aos ouvintes de suas palestras, questionando quantos deles conhecem uma pessoa com deficiência… poucos levantam as mãos. Então você pergunta quantos conhecem uma pessoa desempregada… a maioria da plateia levanta as mãos. E aí você revela a esse público que no Brasil existem 45 milhões de pessoas com deficiências, ou seja, ¼ da população brasileira e 13 milhões de pessoas desempregadas. Diante disso, o fenômeno da invisibilidade da pessoa com deficiência ainda é algo alarmante na sociedade brasileira?


Amanda Brito - O ciclo de invisibilidade ainda é alimentado pela falta de oportunidades para pessoas com deficiência. Somos 45 milhões de brasileiros e brasileiras, porém, muitos de nós não circulamos nas ruas, não temos acesso a escolas comuns, nem aos locais de lazer e cultura e muito menos acesso ao trabalho. É urgente reverter esse quadro. Os problemas que daí decorrem resultam em baixa escolaridade, grande dificuldade de inserção social, de constituição de vínculos familiares para além dos lares paternos e maternos. É um muro institucional que pode e deve ser rompido.


ASJ - Tem uma frase sua, que encontrei lendo seus textos, que achei perfeita. Você diz que “a busca pelo nosso lugar no mundo é um processo pelo qual todos nós em algum momento de nossas vidas passamos”.No caso das pessoas com deficiência, que convivem e enfrentam diariamente manifestações preconceituosas, essa busca tem se dado de que maneira? Você considera que as Leis que asseguram os portadores de deficiência facilitam essa busca nos dias atuais?


Amanda Brito - Se as nossas Leis garantissem acessos aos nossos direitos, o Brasil seria o melhor lugar no mundo para morar. Infelizmente, ainda não é o acontece. A única oportunidade que tive na vida foi a educação que me deu. Uma oportunidade que é negada à maioria das pessoas com deficiência. Eu fui a primeira cadeirante em uma Instituição de Ensino centenária e em todos os empregos pelos quais passei. Hoje eu sou incansável no meu trabalho, porque quero ter orgulho de ser a primeira, mas nunca de ser a única.


ASJ -  No último artigo publicado em seu site Destinos Acessíveis, você fala do quanto as pessoas que não possuem nenhum tipo de deficiência tentam se inspirar nas histórias de vida das pessoas com deficiência, a fim de aliviar seus problemas e dores a partir das dificuldades enfrentadas com a deficiência do outro. E você enfatiza que “não é justo reduzir as pessoas com deficiência a objetos de inspiração[…] e que existem pessoas antes da deficiência”. Esse tipo de comportamento mexeu emocionalmente com você em algum momento da sua vida? E hoje em dia, como você lida com essas pessoas que tentam se inspirar em sua deficiência?


Amanda Brito - Acredito que é natural a curiosidade das pessoas justamente porque o ciclo de invisibilidade ainda é muito forte em nossa sociedade. Mas, eu quero ser admirada pelos resultados do meu trabalho, pela minha capacidade de contribuir para o avanço da sociedade e não simplesmente porque eu tenho um “corpo defeituoso”. Nós precisamos parar de reduzir as pessoas com deficiência a deficiência. Ainda há uma certa “prostituição” do corpo da pessoa com deficiência. Você o aluga para se sentir melhor com relação a sua própria vida. Algo como: “olha essa moça! Minha vida está ruim, mas eu poderia estar em uma cadeira de rodas”.


ASJ - Em uma outra fala você diz: “Não é um problema ser referência, porque é uma forma de fortalecer essas pessoas como eu”. Na verdade você propõe contar sua história para inspirar outras pessoas com deficiência e vem fazendo isso de uma maneira brilhante e natural. O que você tenta transmitir a essas pessoas para que elas sejam tomadas de autoestima, sucesso pessoal e profissional, assim como você?


Amanda Brito - Quando eu nasci, os médicos me deram uma expectativa de vida de dois meses e hoje eu estou com 32 anos. Minha mãe e minha família, além de me darem dignidade, desenvolveram em mim o que tenho de mais valioso hoje: a capacidade de acreditar em mim mesma. Mas, não é essa a realidade de muitas pessoas. Muitos ainda são massacrados pela descrença que um diagnóstico difícil traz. Por isso, mostrar para as outras pessoas que elas podem ser o que elas quiserem, move-me. Assim, estar no mundo corporativo é um ato político, morar sozinha é um ato político, casar também é um ato político.


ASJ - Seu site está completando dois anos, em comemoração vocês lançaram o Movimento Destinos Acessíveis que traz várias novidades e atividades. Fala um pouco desse projeto.


Amanda Brito - O Movimento foi uma resposta à expansão que o blog atingiu nas mídias sociais durante esses dois anos. Nossa proposta é fortalecer a autonomia e a dignidade de pessoas com deficiência, sobretudo as que vivem em situação de vulnerabilidade social. Para isso, realizaremos sete iniciativas que irão desde o fornecimento de consultoria gratuita até a realização de mutirões de atendimentos. Entre os dias 12 a 19 de outubro abriremos o período para a inscrição de voluntários.


Finalizo essa entrevista com uma frase da sua autoria, destacando esse verbo que é extremamente importante, para todos os seres humanos, no processo de encontrarem-se, localizarem-se no mundo ... Acreditar


Acreditar em si mesmo é contagiante”