img
Atitudes transformam realidades
Home / Saiba mais

O que significa ser imigrante negro africano no Brasil?

O que significa ser imigrante negro africano no Brasil? Arménio Alberto Rodrigues da Roda. Doutorando pela UFBA em Direito. Mestre em Direito pela UFBA. Dourando em Direito Público pela UERJ. Membro e ativista de Direitos Humanos em Moçambique, na AMAC. Autor do livro A Dimensão Global do Tráfico Humano.
Em 11/11/2019
"O Brasil é estruturalmente um país marcado por problemas raciais, que em certa medida destrói a autonomia da humanidade negra, que foi negada no passado pela escravidão e hoje pelo racismo."

Com o fluxo e a crise global migratória, influenciada pelas mudanças climáticas, problemas econômicos sociais e políticos, tais, como a guerra, conflitos tribais, étnicos, perseguição política e racial, fome, seca, que vem devastando os países africanos faz com que um grande número de mulheres e homens pretos, imigrem para diferentes lugares do planeta. E neste fato, cabe mencionar o Brasil, que recebe atualmente consideráveis números de imigrantes e refugiados de diferentes países, contemplando um grande número de venezuelanos, haitianos, sírios e diversos povos oriundos da África. Que inclui os angolanos, guineenses, congoleses, nigerianos entres outros, que na luta pela sobrevivência, têm no seu imaginário, o Brasil como o lugar de refúgio ou país de esperança para início de nova vida repleta de paz e estabilidade, ou seja, o fim de sofrimento, como gazela que escapa da boca do leão a beira da morte, e depois de poucos passo é degolada por um leopardo.

Assim é o refugiado, que depois de poucos minutos de sonhos, se desperta ao longo do percurso para vida real, não as fantasias de ontem, pois as expetativas e esperanças transformam-se em lágrimas inacessíveis, que dão vontade de voltar à terra natal. E voltar para onde? Se o que ficou foi a morte, terror e medo, e mesmo assim, pairam dúvidas, se volta ou fica. A decisão final é suportar a dor, mesmo sem ter emprego, passando fome, dormindo debaixo da ponte, a vontade é lutar pela vida. Que vida? Se ninguém a considera. Assim clama, a alma do preto imigrante no Brasil, que em cada nascer e pôr do sol, zumbidos se ouvem no seu coração, gemendo para o amanhã não chegar, porque, a cada dia, adjetivos racistas soam mais alto; macacos, escravos, pois para eles, o preto é mesmo macaco, fala o racista em seu coração, e mesmo dizendo em voz alta, disso ele não se envergonha.

Todavia, o drama sofrido pelos imigrantes negros africanos multiplica-se cada vez mais, se comparado com outras categorias, ou seja, o dilema racial que assola afrodescendentes, acaloram-se ainda mais no corpo do estrangeiro africano, que enfrenta a dor de ser imigrante e ainda suportar o ódio e a negro fobia por conta da sua linda pele, enérgica, resistente, macia e coberta com a dádiva da formidável melanina que a torna protetiva de toda radiação solar de ódio, desprezo, humilhação, e com tudo isso, continuam travando luta do passado e do presente, porque a melanina também irradia o seu coração com luz de que ainda há esperança. Maldita esperança, difícil de suportar, a questão ressoa a mesma tônica, até quando esperar, para início um novo horizonte. E ninguém sabe quando o novo horizonte de igualdade, pluralidade e dignidade contemplará o preto.

Neste dilema de sobrevivência pela vida, o inferno esquecido no passado, lá, no país de origem, retoma com as novas formas estruturais de terrores físicos, psicológicos, ardente nas almas negras e que flamejam nos corpos negros na diáspora brasileira, que perpassam pelo multiforme preconceito, tais como: a xenofobia, racismo, desprezo e todo tipo de discriminação, que ofende, o reduz o valor intrínseco da famosa dignidade humana, que para negro não faz diferença. A dignidade humana não passa de um hino ou música que todos racistas conhecem a letra, porém na vida real é só uma música, ninguém se preocupa com a dignidade do preto, o mano da favela, sabe, mais um bando de gente que entulha o país com suas desgraças.

O mesmo vilão que outrora fora o destino e o depósito dos escravos negros africanos do transatlântico, importados coercivamente se como objetos fossem, é o mesmo senhor multiplicador das mesmas dores racistas e preconceituosas, sofridas no passado e hodiernamente camufladas de novas garras astutas, que se projeta contra os afrodescendentes e os imigrantes negros, que sente na pele a dor de ser negro, num país inchado de negro fobia que se vislumbra nas práticas cotidianas de genocídio negro, que exclui este corpo social melanodérmico do aparato institucional econômico e social.

O Brasil é estruturalmente um país marcado por problemas raciais, que em certa medida destrói a autonomia da humanidade negra, que foi negada no passado pela escravidão e hoje pelo racismo, imbricado na conjuntura sócio empírica, que aniquila os símbolos culturais e o memorial do complexo histórico negro, visualizado a partir da dor dos corpos negros brasileiros natos, que na condição de cidadão, transcorrem todas formas de negação de direitos, imposto pelo sistema racial hegemônico, que perpetua a vitimização dos seus corpos.

E no olhar mais profundo do quotidiano dos imigrantes negros africanos no Brasil, ouve-se gritos e choros do sofrimento acumulado, ou seja, o duplo impacto dos efeitos racistas e xenófobos, individuais e institucionais que escravizam o imigrante negro no mercado de trabalho, submetendo-o ao trabalho precário, desumano e acompanhado de pauperismo salarial, sem mencionar o desemprego, o não acesso à educação e a saúde, empapuçada por profundas desigualdades sociais. Em outras palavras, o preto brasileiro, o imigrante negro africano, não desvela ser sujeito de direitos humanos universais, na condição do imigrante e negro, visto como um infrator natural das normas soberanas do Estado. Mesmo sem um crime perpetrado, o negro e o africano no Brasil, é naturalmente e socialmente criminoso, que rouba as oportunidades de emprego de nativos e que aumenta o índice de criminalidade. Já do lado oposto, o imigrante ocidental, de cor branca, europeu, americano representam um olhar diferente, se comparado aos dilemas sofridos pelos imigrantes negros oriundos da África. O branco europeu não é imigrante, é um turista, endinheirado, abraçado e acolhidos por todos, símbolo de civilização, vistos como agregadores de valor ao país. Entretanto, o preto africano é mais um “marginal, miserável, faminto” transfigurado em sujeito temoroso à sociedade, que vem subtrair o emprego dos brasileiros.

E por este fato, ser um refugiado significa estar na condição de luta pela existência, e não uma questão de escolha. Falando sobre escolhas, pessoas preferem não escolher amar, pior de tudo é que as pessoas que mais precisam de um gesto de amor são marginalizadas. Amor, a expressão de sentimento que um refugiado gostaria ouvir e receber. O que encontra, no entanto, é lugar de xenofobia e racismo sem escrúpulo. Se você não quer amar, não é obrigado(a) a fazê-lo. Portanto, exigimos respeito e igualdade de tratamento.

Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar. (Nelson Mandela,1995)


Eu tenho um sonho " ("I have a dream", em inglês). Estas palavras entraram na História para definir o sonho de um futuro mais justo para a comunidade negra daquele tempo. (KING Junior)


Hoje, exigimos direitos iguais sem distinção de cor, raça, gênero ou nacionalidade, todos somos humanos e temos os direitos de viver sem constrangimentos racistas e xenófobos. Difícil é educar as pessoas a amar outras pessoas, porém exigi-las a respeitar é dever incansável.



O livro de Arménio  pode ser adquirido através dos links:

https://www.amazon.com.br/Dimens%C3%A3o-Global-Tr%C3%A1fico-Humano/dp/6580188081

https://www.saraiva.com.br/a-dimensao-global-do-trafico-humano-10554349/p

https://www.americanas.com.br/produto/88574915

Foto