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A difusão de conteúdo enganoso nas eleições de 2018

A difusão de conteúdo enganoso nas eleições de 2018 Carla Risso.Doutorado (2012) e Mestrado (2005) em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, graduação em Filosofia (FFCHL/USP) e em Publicidade e Propaganda (ECA/USP). Atualmente é professora Adjunto I da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Está vinculada aos Grupos de Pesquisas: Midiato - Grupo de Estudos de Linguagem: Práticas Midiáticas (USP), LOGOS - Comunicação Estratégica, Marca e Cultura (UFBA) e NÚCLEO 3. Grupo de estudo e pesquisa de práticas e de produtos discursivos da cultura midiática.(UFBA).
Em 05/01/2020

A comunicação e informação são elementos pertinentes de descrição do real e, nas palavras de Michel Maffesoli, transfiguram

(...) a forma banalizada, superficial, em benefício do sentido profundo, com a convicção de que se algumas fórmulas se disseminam no tecido social é por encontrarem substância no existente. Nesse sentido, elas nunca são neutras. No caso, exprimem o desejo de estar com outro, desejo de participação, de interação e de troca.

Uma dessas fórmulas perpetuadas há muitos séculos em várias culturas diz respeito à disseminação de boatos. Jean-Bruno Renard (2007), sociólogo francês e professor da Université de Montpellier III, propõe a seguinte definição: 

Um boato ou uma lenda urbana é um enunciado ou uma narrativa breve, de criação anônima, que apresenta múltiplas variantes, de conteúdo surpreendente, contada como sendo verdadeira e recente em um meio social que exprime, simbolicamente, medos e aspirações. Da variedade de elementos que definem o boato resulta um método de pesquisa pluridimensional. 

 O advento das novas tecnologias e das redes sociais exponenciou esse fenômeno, até porque é materialmente impossível, na vida cotidiana, checar todas as informações que recebemos diariamente. Dar ouvidos a um boato “trata-se, de alguma forma, de uma confiança social obrigatória, sem a qual mergulharíamos em uma paranoia e em uma suspeita sistemática”.Segundo o sociólogo francês, o termo “boato” possui dois sentidos que é preciso, cuidadosamente, distinguir: o primeiro sentido é de informação não verificada – nessa acepção, um boato não é, necessariamente, falso. Se for comprovado, deixará de ser “boato”, e será “informação”, um saber sobre a realidade. Se, depois de verificada, uma informação se revela inexata, nós estamos, então, na presença de um “boato” no segundo sentido do termo – o de informação falsa. Trata-se de uma “falsa novidade”, ou a chamada popularmente de fake news, na qual as pessoas acreditaram ou ainda acreditam. 
 Um equívoco criticado por muitos jornalistas profissionais e pesquisadores ao se empregar o termo fake news é a adjetivação de notícias como “falsas”.

A língua, por ser viva, presta-se por vezes a imprecisões e distorções que refletem ações e pensamentos de seus usuários. Repete-se, com frequência, o uso da expressão fake news, aschamadas notícias falsas. Por princípio, se são falsas, não podem ser chamadas de notícias.Notícia é uma produção técnica, submetida a princípios universais de precisão, verificação e comprovação, para citar alguns dos requisitos  essenciais.

 Para Angela Pimenta – coordenadora-executiva do projeto Manual de Credibilidade, parte integrante do projeto Grande Pequena Imprensa, realizado pelo Projor (Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo) e pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) para capacitar veículos da imprensa regional e local –,em entrevista à BBC Brasil, “(...) notícias podem conter erros e enganos, mas são produzidas por profissionais, com um todo, fonte, espaço para o contraditório. Se algo é deliberadamente falso, então não é notícia”. 
 O termo “notícias falsas”, fake news em inglês, foi apropriado por Donald Trump para desqualificar a imprensa que publicava notícias que o desagradava. Trazendo para a realidade brasileira, Jair Bolsonaro também se utiliza do termo para a mesma finalidade. “O termo foi cooptado por maus políticos para desmerecer o jornalismo tradicional”, disse Angela Pimenta. 
 Laura Chinchilla, chefe da missão de observação eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA) no Brasil, às vésperas do segundo turno em 2018, disse que o uso do WhatsApp para disseminação de notícias falsas na eleição brasileira é um caso “sem precedentes”. “No caso do Brasil, foram usadas redes privadas, o WhatsApp. É uma rede que apresenta muitas complexidades para que as autoridades possam acessar e realizar investigações”, disse. Outro fator enfatizado por |Laura como preocupante, foi o uso de notícias falsas para mobilizar vontades dos cidadãos. 
 Viu-se na eleição de Jair Bolsonaro em 2018 uma mudança estratégica no Marketing Político praticado até então. A competitividade de sua campanha, com poucos recursos e distante das hegemonias partidárias, encontra-se na estratégia de articular desde 2013 uma rede multiplataforma difusa de relacionamento, amplamente espalhada, disseminando a mensagem de um futuro desejável sob o ponto de vista do eleitor. A campanha de Bolsonaro se utilizou das permissões do aplicativo WhatsApp, que possibilitava a criação de 9,999 grupos em uma mesma conta e de até 256 destinos por conta – além de permitir enviar mensagens para qualquer número, mesmo que não estivesse salvo na agenda telefônica. Segundo dados do próprio WhatsApp, são 120 milhões de usuários brasileiros no aplicativo – muitos deles pertencem principalmente às classes C, D e E, que, graças a um acordo com as operadoras, aderem a planos de celular com pacote restrito de dados, mas com WhatsApp gratuito. Isso significa que essa parcela da população acaba tendo acesso à Internet somente por meio desse aplicativo, sem possibilidade de clicar em links ou verificar na rede a origem da informação. 
 Pesquisa Datafolha, divulgada em outubro de 2018, informa que o WhatsApp é a rede mais difundida entre eleitores brasileiros, utilizada por 66% deles, ou 97 milhões de pessoas – sendo maior que o Facebook, usado por 58% dos brasileiros que votam. Dos eleitores de Bolsonaro, 81% declararam usar alguma rede social e 57% dizem se informar sobre política no WhatsApp. Dentre os eleitores de Fernando Haddad – o candidato derrotado no segundo turno –, essas porcentagens caem para 59% e 38%, respectivamente. 
 Uma pesquisa comissionada pela Avaaz – rede de campanhas global espalhada em 18 países – aponta o enorme alcance das fake news nas eleições brasileiras. A pesquisa, conduzida pelo IDEIA Big Data, no início de outubro de 2018, perguntou aos eleitores sobre cinco das notícias enganosas mais populares nas redes sociais durante as últimas semanas das eleições. Entre elas, histórias sobre urnas fraudadas para contabilizar votos automáticos para Haddad e boatos de que o candidato também queria distribuir kits gays nas escolas. Resultado: 98,21% dos eleitores de Bolsonaro entrevistados foram expostos a uma ou mais notícias falsas e 89,77% acreditaram na veracidade das mensagens; 84% dos eleitores do Bolsonaro acreditaram na história dos kit gay – o suposto material a ser distribuído em escolas para crianças de seis anos – , e 74% sobre fraude nas urnas – um vídeo publicado no YouTube do canal Brasil Paralelo, com 1,3 milhão de visualizações, trazia a desinformação de que “estudos internacionais indicam que a probabilidade de fraude na última eleição presidencial foi de 73,14%”.59 Em uma pesquisa subsequente, no mesmo período no qual essas notícias falsas atingiram o ápice de popularidade nas redes, 40% dos entrevistados disseram ter mudado de posição de “oposição ou com dúvidas sobre” Bolsonaro para “decididos” ou “considerando votar” nele.