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Com a palavra...Felipe Bomfim, A Intolerância Regiosa no Brasil

Com a palavra...Felipe Bomfim, A Intolerância Regiosa no Brasil Felipe Rodrigues Bomfim. Possui doutorado em Difusão do Conhecimento (UFBA). Possui mestrado em Economia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Possui especialização em Gestão da Educação Contemporânea pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB).Possui graduação em Ciências Econômicas pela Faculdade Católica de Ciências Econômicas da Bahia (UCSAL). É professor Adjunto da Universidade do Estado da Bahia - UNEB, Coordenador do Núcleo de Ensino, Pesquisa e Extensão - NUPE/DCH-V, Coordenador da pós-graduação (Latu-Sensu) Gestão Estratégica e Negócios do DCH-V. Líder do grupo de estudo Propriedade Intelectual e Economia Criativa na Universidade do Estado da Bahia- GREPRINTECU.
Em 21/01/2020

ASJ-Você acredita que é possível estabelecer o diálogo entre as religiões numa relação em que haja o respeito verdadeiro das escolhas e crenças entre cada uma delas?


Felipe Bomfim- Primeiramente permita-me parabenizar esse excelente meio de divulgação que abrange diversas temáticas pertinentes. Respondendo à pergunta: Primeiro precisamos entender o que é religião e o que é espiritualidade para entender o que acontece. Religião é a forma com que eu me ligo a outra dimensão e o termo vem de “religare”. Espiritualidade vem do autoconhecimento: de onde vim, para que vim e para onde vou. A forma com que uma pessoa se conecta com Deus (olodumare/Zambi/Jeová) é específica de cada agrupamento religioso e implica naquilo que acredita (crença). Nesse sentido nenhuma religião é melhor do que outra, apenas, cremos de formas diferente e tudo leva a uma fonte eterna de tudo que existe denominado ser supremo ou Deus. Para o filósofo Espinoza esse Deus é natureza e está em todo lugar.

Permita-me contar um breve acontecimento e exemplo desse diálogo entre as crenças. Todas as terças e sextas feiras, no Tabernáculo Espirita Umbandista Pai Jacó de Aruanda em Feira de Santana, eu, o prof. Gemicre Silva e a profa. Gabriela Silva, fazemos palestras de esclarecimento sobre religião de matriz africana. Certa feita na mesa, da primeira corrente, estávamos com a presença de uma pastora (de prenome Fátima) que fez uso da palavra e pregou segundo sua religião e em seguida fiz uso da palavra, falando dos orixás, Exús, Ebós, Banhos e Ifá. Foi, para mim, o maior exemplo de convivência (e não tolerância) religiosa.


ASJ-Por que as religiões de matriz africana são as que mais sofrem preconceito no Brasil?


Felipe Bomfim- Primeiro porque somos o maior contingente negro fora da África. Segundo porque as formas com que as religiões de matriz africana se religam ao divino (outra dimensão) provém de um povo que foi escravizado, como bem dizia a educadora e Mãe no Santo Macota Valdina: não sou descendente de escravos, sou descendente de seres humanos que foram escravizados. Só que na mente das pessoas somos descendentes de escravo e tudo que provem dessa descendência está atrelado ao negativo. O fim da escravidão é muito recente, ainda, 131 anos e o imaginário tem falado mais alto naqueles que descriminam. Terceiro por desconhecer e elaborar conceitos (sobre nossa crença) sem se dar o direito de conhecer ou experimentar. Está registrado na história que na década de sessenta o candomblé era proibido e só deixou de sê-lo depois que Mãe Menininha curou no seu terreiro (durante dias) uma personalidade política que andara vários lugares no mundo e fora desenganado pelos médicos onde passava. Depois dessa cura saiu no Diário Oficial que a partir daquela data o candomblé seria reconhecido e não (mais) perseguido. Terceiro, como diz Sartre, o importante não é o que fazem de nós, o importante é o que fazemos com o que fizeram de nós. E por último, porque as pessoas não entendem que ser diferente é normal.


ASJ- O atual contexto político em que o Brasil mergulhou fez emergir um fenômeno social antes escondido, camuflado em muitas pessoas - o preconceito racial e religioso. Estamos vivenciando cenas de intolerância religiosa seguida de racismo com frequência. Isso significa que a sociedade regrediu ou esses indivíduos intolerantes sempre estiveram por aí e encontraram no discurso político ultraconservador a chance de se manifestarem?


Felipe Bomfim- Nessa questão você traz várias categorias que merecem ser discutidas rapidamente: preconceito racial e religioso; intolerância e discurso político ultraconservador. Eu discordo do termo preconceito racial e religioso! Penso que quando nos referimos a raça (humana que é a única categoria existente) voltada para a questão de preconceito estamos nos referindo á etnia. O preconceito religioso existe e sempre existirá porque as pessoas não conhecem as práticas religiosas, diversas, e estabelecem seus próprios conceitos, na maioria das vezes, de forma deformada sem conhecimento ou experiência. Quando falamos de (IN)TOLERÂNCIA o que buscamos é a tolerância e tolerar não implica em respeitar: basta suportar. O termo mais apropriado, a meu juízo, seria (DES)RESPEITO RELIGIOSO que implica na busca do respeito num processo dialético. A intolerância parte da ideia de superioridade religiosa e desrespeito às demais religião. Ao longo da história brasileira poucos, ou quase nenhum, se definiram enquanto religioso a exceção do presidente do Brasil: Jair Messias Bolsonaro. Quando reforço o termo presidente do Brasil, o faço por respeitar a democracia que tanto defendemos, embora eu não tenha votado nele e discorde das suas atitudes: mas ele é o presidente e quem muito contribuiu para isso foi justamente a religião: os evangélicos e, até, REMA. Temos união a ponto de, a partir das Religiões de Matriz Africana - REMA, eleger um governador na Bahia? Merece reflexão! Isto posto, nós de Religião de Matriz Africana – REMA, precisamos entender e assumir o poder que ela representa em todas as áreas de nossas vidas, pois, a maioria dos políticos tem o pé no terreiro e não dão um passo sem antes consultar o jogo, não é? O que precisamos é: promover o respeito (e não tolerância) das nossas religiões e entre nós; pensar na criação do Partido de Religiões de Matrizes Africanas – REMA; unir as matrizes em pró de um projeto único que é o respeito à diversidade.

Detalhe, somos 75% de negros e cultuamos as religiões de matriz africana mais do que na, própria, África. Lá, na África, a religião de matriz africana - REMA é chamada de feitiçaria ou religião tradicional (praticada às escondidas em alguns países) e não chega a 1%, segundo dados de uma pesquisadora negra que se encontra no continente africano, fazendo tese de doutorado (UFBA) sobre ancestralidade


ASJ-Podemos então considerar que ódio, intolerância e racismo estão juntos quando se fala de religião no Brasil?


Felipe Bomfim- Eu não diria ódio, (in)tolerância e racismo. Eu diria: desrespeito e ignorância do que não se conhece ou pouco se conhece.


ASJ-Que caminho então, deve ser seguido para minimizar a violação à liberdade religiosa no nosso país, que se diz laico?


Felipe Bomfim- A liberdade religiosa é garantida pela Constituição de 1988 no Artigo 5º, contendo 77 incisos sobre os direitos fundamentais dos cidadãos. É no inciso VI, que aborda-se a liberdade de consciência e de crença. Quando um presidente (maior cargo da nação) se proclama evangélico a tendência é que esse agrupamento cresça e seja valorizado em nível de importância. Agora me diga uma coisa? Quantos negros, políticos ou bem sucedidos se proclamam de Religião de Matriz Africana – REMA? Eles quase que escondem e não assumem! Quantos você já viu terminar seus discursos e dizer: QUE OLODUMARE/ZAMBI E OS ORIXÁS ABRAM OS NOSSOS CAMINHOS. Entende! Você quer que o outro te reconheça enquanto você mesmo não se reconhece ou se assume.

Permita-me contar um outro caso que aconteceu comigo. Há alguns anos, fui professor de um componente (disciplina) numa pós-graduação que capacitava professores para atuar no ensino básico e fundamental no município de Nazaré das Farinha na Bahia, a partir da Lei 10.639 e a Lei 11.645, que em linhas gerais tratam sobre o ensino afrodescendente e indígena nas instituições de ensino. Tomei conhecimento do perfil da turma e a maioria, mais de vinte, era evangélico. Conduzir o componente, exibi filmes sobre Orixás, falei sobre a origem das religiões, falei sobre desrespeito religioso, falei sobre a igreja, ebó, macumba...enfim. Ao final eu tirei o meu paletó e lá estava na minha camisa o tridente na mão de Exu e vários Orixás! Então falei a eles: ESSA É A FÉ QUE PROFESSO, SOU DE RELIGÃO DE MATRIZ AFRICAS – REMA. Os saberes que dividimos, aqui, perde o conteúdo por que sou de REMA? E eles me responderam: professor, nunca nos explicaram nada disso que o senhor explicou...o senhor nos representa e obrigado pelos ensinamentos. Convidei-os para visitar o terreiro e fui convidada para ir ao templo deles. Para minha alegria uma dessas participante, dentre várias, é a que está desenvolvendo tese sobre ancestralidade na África e que citei sobre alguns dados da pesquisa dela.


ASJ-O Brasil, na última eleição presidencial teve como experiência a relação direta de religiosos com a política, o uso da religião como ferramenta política. Você considera a aliança entre religião e política uma ameaça para a democracia?


Felipe Bomfim- Se houver respeito não há ameaça à democracia. Se conseguirmos nos unir em torno da REMA, que é composta de variadas etnias, podermos fazer o mesmo na Bahia e depois no Brasil. A questão é: somos unidos a tal ponto? O “boom” de evangélicos que temos hoje, a REMA tinha na década de 60! Mas não se articulou politicamente para cargos e eleições. Democracia é o governo da maioria e deve ser respeitada se queremos mantê-la. A propósito, você já viu falar ou foi no primeiro encontro evangélico do PT? Pois é, os partidos políticos estão buscando esse “nicho” de mercado! Jesus é a marca que mais vende no mundo. Não há, em nenhum partido político, um projeto de redução da desigualdade no Brasil ou local. Há um projeto de poder.



ASJ-Apesar da Constituição Federal garantir o respeito à liberdade religiosa, agressões a pessoas e locais de cultos religiosos continuam acontecendo no Brasil. Para você, as pessoas vivem, de fato, a tolerância e não o respeito religioso?


Felipe Bomfim- Você agora chegou na questão fundamental: (IN) TOLERÂNCIA. Não quero que tolerem a minha religião, quero que respeitem! Quem respeita não agride porque no seu imaginário está alicerçado no respeito. O pensamento é simples: quando você é mal educado você tolera e quando você tem educação você respeita. Estamos deseducando as pessoas a partir da utilização do termo. O imaginário é muito importante e vou te dar outro exemplo: a polícia se refere ao crime como “ORGANIZADO”, então a tendência do crime, graças ao termo, é se organizar cada vez mais! Entende?


ASJ-Esse respeito, do qual falamos, que está além da tolerância, é uma utopia ou algo possível, mas ainda distante?


Felipe Bomfim- Penso que o problema é a evolução do ser humano que não respeita e não se vê no lugar do outro. Ainda matamos animais para nos alimentar, apesar de toda tecnologia, não é? O respeito religioso deve começar comigo, com os meus e depois com os outros. Não podemos inverter. Nós de REMA, precisamos respeitar nossos irmãos (negros) que são evangélicos, pois, somos LIVRES para professar a nossa fé.


Gratidão pela oportunidade de expressar meu humilde pensamento sobre questão de tamanha envergadura. Que Deus e os Orixás nos protejam no caminho do divino!