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21 DE JANEIRO: REFLEXÕES PELO DIA NACIONAL DE COMBATE À INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

21 DE JANEIRO: REFLEXÕES PELO DIA NACIONAL DE COMBATE À INTOLERÂNCIA RELIGIOSA Luciano Santos.Teólogo, professor da Faculdade Batista Brasileira, palestrante e pastor da Comunidade Cristã Inclusiva do Salvador. Especialista em Docência em História Filosofia e Teologia; mestrando pelo Programa Multidisciplinar em Cultura e Sociedade (Pós-cultura) da Universidade Federal da Bahia.
Em 21/01/2020

Desde 2007, a data de 21 de Janeiro foi fixada no Brasil como o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Esta data foi escolhida para fazer referência à yalorixá Mãe Gilda, do terreiro Ilê Axé Abassá de Ogum, que além de ser acusada de charlatanismo com a sua foto publicada em um veículo de comunicação de uma  denominação evangélica,  teve o seu terreiro invadido e depredado, o que lhe causou um infarto fulminante. A morte da yalorixá ocorreu em 21 de Janeiro de 2000.    Vinte anos após a morte da mãe Gilda, somos levados a questionar: quais os avanços tem ocorrido, no contexto das políticas públicas, para que fatos como esses possam ser evitados, e caso ocorram, os responsáveis punidos? O que dizem os números em relação aos casos de intolerância religiosa no Brasil? O que leva um grupo de pessoas a proferir um discurso de ódio em relação a uma determinada religião, invadindo e destruindo o seu espaço e elementos sagrados?  
De acordo com a informação do site “Correio Braziliense” em 13/06/2019, baseada no balanço apresentado pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, o Brasil ainda reflete manifestações de intolerância religiosa, que acontecem de diversas formas, tais como: agressões físicas, xingamentos, depredações, destruições de imagens e incêndios criminosos. Segundo o site, em 2018 foram registrados 506 casos de intolerância religiosa, sendo as religiões de matriz africana (candomblé e umbanda), as mais atingidas. 
 A intolerância religiosa no Brasil é um problema antigo, é histórico, pois vem com a chegada dos colonizadores portugueses. Inicialmente, há uma tentativa dos jesuítas de disseminarem a fé católica entre os índios, submetendo-os aos valores do cristianismo europeu e minimizando a sua cultura. Anos mais tarde, com o sequestro dos africanos que foram escravizados e trazidos ao Brasil, os mesmos portugueses, que não reconheciam outras manifestações religiosas que não fosse a cristã, investiram, de forma violenta, na invisibilização e erradicação das culturas religiosas afro e na “conversão” dos africanos a fé cristã europeia.  
  A intolerância religiosa nasce a partir de um fundamentalismo irracional, radical e inconsequente, que traz consigo elementos que causam uma série de preconceito, violência e discurso de ódio, praticados por alguns contra um indivíduo ou um grupo de pessoas que professa uma diferente crença. Exponho, a seguir, alguns elementos desse fundamentalismo gerador da intolerância religiosa.  
O primeiro dele, é que o fundamentalismo tem um caráter proselitista, ou seja, um indivíduo ou um determinado grupo religioso reivindica que a sua crença é a única, genuína, legítima e verdadeira em relação aos demais, ao ponto de impor a sua “verdade”.   
O segundo elemento que caracteriza o fundamentalismo causador da intolerância religiosa é o sentimento de superioridade, o mesmo sentimento dos colonizadores europeus quando chegaram ao Brasil para catequizar os índios e “converter” os africanos escravizados. O sentimento de superioridade, reflexo de uma herança europeia, faz com que haja uma atitude de demonização, como ocorre, frequentemente, em algumas vertentes do cristianismo em relação às religiões de matriz africana, ou uma intensa perseguição dos grupos radicais islâmicos em relação aos cristãos. 
 Não abertura ao diálogo é a outra característica do fundamentalismo religioso radical, na prática, é consequência das duas primeiras apresentadas anteriormente. Em um país tão plural como o Brasil, o diálogo interreligioso é fundamental para que a intolerância seja combatida. Afinal, em tese, as religiões tem uma filosofia em comum: respeitar e amar o próximo.    
Esta data, 21 de Janeiro, representa a marca pela luta em respeito à diversidade religiosa e a igualdade na proteção das diferentes religiões presentes no Brasil. O respeito entre as elas é possível a partir do reconhecimento de que toda e qualquer manifestação de fé e de crença é válida. Tolerar vai muito além de afirmar “eu respeito”; tolerar é conviver, é dialogar.  
Que esses vinte anos da morte da Yalorixá Mãe Gilda, vítima da intolerância religiosa, abra os nossos olhos, para que enxerguemos que, assim como cada pessoa tem o direito de ser, ela também tem o direito de crer e de não crer.