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Guedes: O explícito retrato da Elite do Atraso

Guedes: O explícito retrato da Elite do Atraso
Em 18/02/2020

O termo elite do atraso surge com o sociólogo Jessé de Souza, na sua obra intitulada Elite do Atraso: da escravidão à lava jato, um livro que revela o verdadeiro objetivo dos donos do poder, que nada mais é que fazer perpetuar na sociedade brasileira a escravidão, hoje forjada, camuflada de diversas formas. Assim que Paulo Guedes, atual ministro da economia, fez seu pronunciamento racista sobre a ida das empregadas domésticas à Disneylândia, como sendo uma bagunça, veio imediatamente o livro de Jessé na minha mente, pois vi no ministro, o explícito retrato da elite que não permite que as classes subalternas e marginalizadas dos confortos sociais sejam inseridas em seus ciclos de convivência.

Incomoda essa elite, característicamente branca, a companhia de negros e negras nas poltronas dos aviões. Essa elite que em sua maioria é pertencente às oligarquias desde a era colonial, onde seus ancestrais herdaram, desde as capitanias hereditárias, enormes pedaços de terras da família real e alguns dos seus ancestrais entraram no puxasaquísmo político e motivaram o tráfico negreiro, não suportam ver seus espaços serem utilizados pelos que faxinam, extraem petróleo, pelo metalúrgico do ABC Paulista que chega à presidência, trabalhadores do chão de fábrica que cheiram a suor. Não, não há espaço para essa gente, que não tem o direito de mudar de classe social, de adquirir conhecimento e se tornar um doutor, uma grande empresária.

A manipulação simbólica do governo Bolsonarista beneficia a elite ao promover pronunciamentos pautados no racismo de classe e raça; além de beneficiá-la com a neoliberal dominação econômica, através das reformas já em curso, trabalhista e previdenciária e as que estão por ser votadas, administrativa, tributária e política que esmagam a classe trabalhadora, a “ralé brasileira”, outro termo de Jessé de Souza. O pensamento conservador sempre esteve presente na no Brasil, por um tempo ele foi suplantado por um governo que não agiu como um vira-lata que bate continência ao poderio americano; que respeitou a classe trabalhadora lhe proporcionado viagens aéreas onde suas mentes planejavam estar, na Disney, por exemplo; que permitiu a classe sofredora e sem oportunidades, ingressar seus filhos nas universidades, tornando-os doutores e profissionais de trabalho intelectual e não braçal, como seus pais. Essas conquistas despertaram o conservadorismo, que impossibilitado de se manifestar pelas ideias progressistas durante os governos Lula e Dilma, veio à tona revelando-se como um dragão que cospe chamas racistas, elitistas, preconceituosas e intolerantes.

Os conservadores se manifestam, a priore, com um golpe, retirando a presidenta Dilma Roussef com argumentos pífios e saudações medíocres e logo após o fim do mandato prresidido por Michel Temer, elegem um político que concentra um ultra conservadorismo avassalador, tomado de um ódio amplamente explícito à esquerda brasileira, taxada por ele e seus séquitos, de comunista. Esse espírito político que renasce na sociedade brasileira nas eleições de 2018, extrair do povo as utopias sociais largamente alimentadas na era Lulista, retira conquistas da classe trabalhadora e sindical e produz falas como “servidor público é parasita”, “empregada doméstica indo para a Disney, uma bagunça”, “quem desmata a Amazônia é quem passa fome”.

O que assistimos é um total desrespeito ao cidadão e cidadã, dominações simbólica, política, econômica que aniquilam direitos constitucionais, políticas sociais e direitos humanos. Se não há espaço para a classe trabalhadora nos espaços elitistas, por que haveria a classe trabalhadora aceitar as mazelas que lhe estão sendo impostas? Não há espaço para um espírito conformista diante dessa conjuntura conservadora que tenta catequizar índios, votar medidas que esmagam as conquistas do povo, adquiridas ao longo de décadas, séculos; que supervaloriza somente a classe alta do país; que retira direitos; entorpece mentes aliando o discurso religioso à política; que mata gradativamente a democracia brasileira. Não deve haver espaço para uma elite que escraviza camufladamente, defendendo-se com escudos escárnios, que são as leis que ela mesma vota beneficiando-se. Não deveria haver legalidade nesses tipos de leis, que vão de encontro aos anseios do povo, afinal, o que é democracia, não é o governo do povo para o povo?

Paulo Guedes ao pronunciar as estúpidas falas, remete-nos ao passado que ficou adormecido, escondido, que teve seus documentos incinerados por Ruy Barbosa, remete-nos ao escravismo. E sobre esse tempo ofuscado pelo poderio que sucede a Lei Áurea aos dias atuais, Jessé destaca que,“Nosso passado intocado até hoje, precisamente por seu esquecimento, é o do escravismo. Do escravismo nós herdamos o desprezo e o ódio covarde pelas classes populares, que tornaram uma sociedade minimamente igualitária como a europa.”*1 A herança do escravismo, sem dúvidas, produz sujeitos como Paulo Guedes e daí presenciamos no Brasil, “o ódio aos mais frágeis e a culpabilização da própria vítima pelo infortúnio”.*2

As orações de subordinação social e econômica do ministro retratam a forma como as classes populares são consideradas pela elite que alimenta em si as veias escravocratas, por uma elite que domina a política e enxerga essa gente como “não gente” e merecem uma subvida, em que não se é permitido sonhar em pisar em terras estrangeiras para um momento de diversão e lazer.

Maíra Bahia

Idealizadora do Atitude Social Já


*1 JESSÉ de Souza, A elite do atraso: da escravidão à lava Jato, p. 151

*2 JESSÉ de Souza, A elite do atraso: da escravidão à lava Jato, p. 152