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É preciso continuar caminhando

É preciso continuar caminhando
Em 08/03/2020

Maria, Isabel, Rita e Madalena

Anastácia, Nzinga, Zeferina e Iracema

Mariele, Dandara, Lúcia e Helena

Agripina, Maria Preta, Carolina e Moema

Agatha, Felipa, Joana e Açucena



Entre rainhas, guerreiras, mães, sonhadoras, famosas e anônimas, elas podem ser tantas coisas.... Tudo que desejarem e sonharem ser. Elas poderiam ter sido tudo que desejaram e sonharam ser, se não fosse o trágico encontro dessas mulheres, outras meninas com a opressão, violência, machismo, patriarcalismo misoginia e racismo.

Tantas histórias...

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1) Madalena, filha de lavadeira, mulher autentica, mãe solteira, empregada doméstica, negra e nordestina. Sempre sofreu com o racismo estrutural da sociedade brasileira. Aos treze anos, foi levada do interior da Bahia para morar na capital do Estado em um bairro nobre na casa de sua madrinha Isabel, com a promessa de terminar os estudos. Quem dera fosse só isso.

Aos quinze anos, depois de uma longa jornada diária de trabalho na casa da madrinha, Madalena se preparava para ir à escola, quando, subitamente, fora surpreendida em seu pequeno quarto nos fundos da casa. Era o filho de sua madrinha, um homem de 38 anos.

Depois daquele dia, sua vida não seria a mesma. Despedida, acusada de difamar o filho da madrinha, nunca mais, Madalena conseguiu retornar para escola, temia que todas as vezes que se arrumasse, fosse surpreendida subitamente. Mesmo com toda dor que sentia na alma, tinha que trabalhar para pagar o aluguel do barraco, não estava mais sozinha, precisava cuidar da pequena Moema para que não tivesse o mesmo destino triste. Decidiu viver por sua filha que aos 28 anos, concluiu a faculdade de medicina.

Em 2018 no Brasil, foram registrados 53.726 novos casos de estupro contra mulheres. Na Bahia esse número foi de 2.799 casos. (Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 2019)

Vale ressaltar que a Pesquisa Nacional de Vitimização (2013) estimou que cerca de 7,5% das vítimas de violência sexual notificam o caso para polícia. (Pesquisa Nacional de Vitimização, 2013)


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2) Felipa morava com o marido e suas 5 filhas, Lúcia, Carolina, Zeferina, Agatha e Agripina. O sertão baiano era seu chão, sua terra, trabalhava de sol a sol na pequena lavoura de milho e feijão nunca reclamava de nada, só da triste vida que seu marido levava. Alcoólatra, lhe arrancava metade do lucro diário, sem receio, destilava nela todo azedume de sua alma e toda raiva que sentia do mundo.

Quase todos os dias Felipa apanhava, resistiu calada durante mais de dez anos, seu corpo parecia um mapa, as marcas e cicatrizes tinham aniversário. Em um daqueles dias, depois da lavoura, sua filha mais velha, Agatha, aos 12 anos lhe questionara se também iria apanhar quando fosse adulta. Aquilo, cortou o coração de Felipa, estava cansada do ciclo de violência que vivia, decidira colocar um ponto final naquela situação, guardou no seu interior que mataria o seu agressor. Naquele dia Felipa levara as filhas para a casa de sua irmã Iracema, precisava ficar sozinha com ele. Mal sabia ela o que iria acontecer, foi o dia em que ela mais apanhou, apanhou, apanhou tanto que mal tinha forças para falar, não podia nem se mover direito para implorar por socorro. Passado o coma, Felipa acordou 28 dias depois, nunca mais foi a mesma mulher, mas buscou ajuda, era preciso continuar viva, era preciso ser exemplo para suas meninas. Não denunciou o marido enterrou a dor e foi embora do sertão, fez da grande cidade do Rio de Janeiro seu novo chão. Nunca mais se relacionou afetivamente, cuidou das marcas da alma, encontrou na fé o caminho para continuar. Suas filhas, cresceram e floresceram, não reproduziram o ciclo da violência e cuidaram do pai que implorou no leito o perdão concedido de Felipa.

Em 2018, no Brasil o número de mulheres vítimas de lesão corporal dolosa - violência doméstica – foi de 263.067 novos casos. (Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 2019)


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3) Dandara teve uma infância feliz, filha única, seus pais a criara como uma princesa, inteligente, sempre tirava boas notas na escola. Aos 17 anos, realizava o sonho da família, passou no vestibular e seria professora. Começou a namorar e rapidamente, fizeram planos para o casamento.

Na verdade, ela não tinha certeza se queria casar, ficava confusa com o modo que seu namorado a tratava. Depois de formada, independente financeiramente, Dandara conversou com sua mãe, Maria Preta, com Helena e Joana, suas amigas, tomou uma decisão, era melhor terminar os planos de casamento, era melhor terminar o namoro, cansara dos ramos de flores com pedidos de desculpas e promessas de mudança, afinal, quem ama não machuca, não mente, não engana, não prende.

Ele achava que sim, que poderia prender Dandara e, assim fez. Ele prendeu Dandara nas lembranças de todos que a conhecera. Para sua mãe, a vida não fazia mais sentido, viver com a eterna saudade de Dandara era o mesmo que morrer estando viva.


Em 2017, o número de mulheres assassinadas no país foi de 4.069. Esse foi o maior índice registrado nos últimos 10 anos, sendo que, 1.206 dos casos, foram apontados como feminicídios. (Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 2019)

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4) Açucena, gaúcha, 47 anos, passara metade de sua vida tentando engravidar, sem sucesso. Sentia-se fracassada, diminuída e doente, era incapaz de gerar e isso lhe custara a saúde mental, assim que fez a última tentativa. Açucena era bem-sucedida, funcionária pública, dedicada em tudo que fazia.

Todos lhe cobravam um filho, depois das reuniões de família, ela chorava muito, não tinha coragem de dizer a verdade, sempre sustentou a ideia de que, decidira junto com seu marido, não ter filhos. Só eles sabiam as crises de angustia e dor sofridas por Açucena.

Açucena resolveu ouvir os concelhos de seu companheiro, adotaram Maria, menina negra de 9 anos que vivia no Lar infantil desde os 4 dias de vida.

Elas descobriram juntas a melhor sensação de todas, o amor fraterno, o riso farto e a alegria. Açucena se completara com o amor incondicional de Maria.


Conforme relatório disponibilizado pelo Conselho Nacional de Justiça, existem 9.348 crianças e adolescentes cadastrados para adoção no país. Contudo, 13,96% dos pretendentes para adoção aceitam somente crianças brancas. (Cadastro Nacional de Adoção, CNJ, 2020).

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Infinitas histórias poderiam ser contadas, aliás, todas temos dezenas de histórias de mulheres que são constantemente julgadas, pela sociedade, porém, não existe fórmula certa para ser a mulher ideal, a mãe ideal, a companheira ideal, a rainha ideal, a guerreira ideal... ideal é ser respeitada e feliz na sua condição, no seu tempo, no seu espaço, na sua decisão.

Sempre existirá uma saída, sempre existirá uma alternativa contrária a violência. Precisamos celebrar as conquistas alcançadas ao longo da trajetória de luta das mulheres, contudo a igualdade ainda é o caminho.

Nessa jornada de construção, desconstrução e reconstrução que as mulheres têm resistido e sobrevivido, indispensáveis, defensoras do que são e das que serão.

Que nesse dia internacional da mulher, possamos cuidar de nós e cuidar das outras, olhar para dentro e para fora com olhos de amor e com a certeza de que precisamos continuar caminhando e corroborando para a consecução efetiva da justiça, principalmente no que se refere ao racismo e as inúmeras distorções estruturais sofridas pelas mulheres na sociedade brasileira.


Feliz Dia Internacional da Mulher.

Bibliografia:

Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Disponível em :

<<https://www.cartacapital.com.br/wp-content/uploads/2019/09/Anuario-2019-FINAL-v3.pdf>> Acessado em 01/03/2020.

Pesquisa Nacional de Vitimização. Disponível em: <<http://www.crisp.ufmg.br/wp-content/uploads/2013/10/Relat%C3%B3rio-PNV-Senasp_final.pdf>> Acessado em 01/03/200.

Conselho Nacional de Justiça- Cadastro Nacional de Adoção. Disponível em: <<https://www.cnj.jus.br/cnanovo/pages/publico/index.jsf>> Acessado em 01/03/2020.