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Reflexões sobre corpos na velhice na cultura brasileira.

Reflexões sobre corpos na velhice na cultura brasileira. Cássio Luiz Aragão Matos.Doutorando e Mestre pelo Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da Universidade Federal da Bahia (UFBA); Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Relações Públicas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), e Bacharel em Fisioterapia pelo Instituto Baiano de Ensino Superior (IBES)
Em 02/04/2020

Na cultura brasileira o corpo é um capital, uma riqueza das mais desejadas pelos indivíduos das camadas médias urbanas e também das camadas mais pobres, as quais percebem seu corpo como um importante veículo de ascensão social. É notório identificar no Brasil a associação entre corpo e prestígio.

O corpo velho na cultura contemporânea tornou-se um estilo e modo de vida. A busca frenética por um corpo eternamente jovem, bonito, e juvenilizado conquistou um espaço inédito nos meios científicos, artísticos, na mídia, na moda e, sobretudo, nas esferas do cotidiano. O corpo do idoso na contemporaneidade aparece com atributos de beleza, sensualidade, juvenilização, saúde, sexualidade, disposição, bem-estar e longevidade.

Os corpos velhos juvenilizados mostrados nas revistas, nas tvs e nas mídias sociais não são, portanto, corpos doentes, dramáticos e senis, de limitações e de imperfeições físicas. O corpo velho juvenilizado é transformado em mudanças de práticas corporais que buscam adiar, esconder, mascarar os sinais biológicos do envelhecimento. A boa aparência, a performance física, o desenvolvimento sexual são provas de ter um corpo jovem para os “novos velhos”.

Na cultura contemporânea há uma intensificação pela dimensão estética voltada para a juventude, e a visão do homem está centrada na imagem corporal. O homem não é visto apenas como um ser exclusivamente biológico, nem somente como produto da cultura, mas sim resultante das várias interações: biológico, social e cultural.

A sociedade é organizada também em função do consumo e tem como referência o comportamento, a beleza, a aparência física, a moda, o estilo e modo de vida. O corpo jovem assume papel preponderante, e assim, podemos afirmar que é difícil alguém na cultura de consumo querer ter um corpo velho. Na cultura contemporânea, a mídia, propõe uma imagem de corporeidade voltada apenas para aparência física, busca-se a imagem da eterna juventude. E a mídia tende a ditar modelos de imagens estéticas e comportamentais, levando o indivíduo a buscar ter um corpo com uma imagem jovem.

As imagens do corpo na velhice são tantas que muitas vezes diferem segundo o gênero, a classe social, a época ou a sociedade em que se vive, e tem como elemento fundamental a imagem corporal. A imagem corporal é o modo pelo qual o corpo apresenta-se para nós, ou seja, é a representação mental que possuímos do nosso corpo. É considerada uma construção multifatorial que envolve percepção, afeto, componentes cognitivos, aspectos físicos e estéticos. (MATOS, 2015).

A promessa da eterna juventude é um mecanismo fundamental da constituição de mercados de consumo. As oposições entre “o jovem velho” e o “jovem jovem” e o “velho jovem” são formas de estabelecer laços simbólicos entre indivíduos, criando mecanismos de diferenciação, em um mundo em que a obliteração das fronteiras entre os grupos é acompanhada de uma afirmação, cada vez mais intensa, da heterogeneidade e das particularidades locais (DEBERT, 2004).

Cultuar o corpo na cultura contemporânea não carrega a mesma conotação para os dois sexos, pois a intensidade e o vigor, os efeitos sobre a relação com o corpo e a função na construção da identidade pessoal são diferenciados segundo o sexo. A beleza feminina é importante fator na diferenciação sexual do ponto de vista cultural e psicológico, não apenas estético (LIPOVETSKY, 1999).

Na cultura contemporânea brasileira a beleza e a aparência do corpo feminino (jovem, magro, sexy, e em boa forma) é uma riqueza. O corpo é um capital simbólico, econômico e social. A preocupação é excessiva, e demonstra sua importância para os relacionamentos afetivos e sexuais (GOLDENBERG, 2013).

O corpo na cultura brasileira é um capital, uma riqueza das mais desejadas pelos indivíduos das camadas médias urbanas e também das camadas mais pobres, as quais percebem seu corpo como um importante veículo de ascensão social. É notório identificar a associação entre corpo e prestígio, e como o corpo se tornou um elemento fundamental na cultura brasileira (GOLDENBERG, 2010).

Para Bourdieu (2007), o corpo distintivo é um capital: um corpo jovem, magro, em boa forma, um corpo sexy, um corpo que se distingue como superior àquele que o possui, um corpo conquistado por meio de muito investimento financeiro, trabalho e sacrifício. Para Le Breton (2016):

A imagem do corpo é a representação que o sujeito faz de seu corpo; a maneira pela qual ele aparece mais ou menos conscientemente a partir de um novo contexto social e cultural particularizado por sua história pessoal (LE BRETON, p. 179, 2016).

A tendência de cultuar o corpo pode ser entendida como forma de estar na moda, que vem ganhando cada vez mais adeptos e adesão de pessoas, e criando subgrupos que se diferenciam uns dos outros, pelo tipo de modalidade praticada na academia – atividade física, pelo tipo de treino funcional, pela roupa que usa, pelo tipo de música que se ouve, pelos locais culturais que frequenta, pelo tipo de programa de televisão que assiste, pela leitura que faz (MATOS, 2015).

Atualmente, o embelezamento é aceito como um gesto rotineiro, não apenas um direito, mas também um dever de todas as mulheres e, mais recentemente dos homens (Sant’anna, 2004). Entre as diversas exigências colocadas pelos estereótipos de beleza da sociedade atual, está a busca da juventude eterna dos corpos. Ter rugas, ficar flácido e ter cabelos brancos à mostra são sinal de descuido, de relaxamento e de desleixo na cultura contemporânea.

A busca frenética por um corpo eternamente jovem, bonito, e juvenilizado conquistou um espaço inédito nos meios científicos, artísticos, na mídia, na moda e, sobretudo, nas esferas do cotidiano. O corpo do idoso na contemporaneidade aparece com atributos de beleza, sensualidade, juvenilização, saúde, sexualidade, disposição, bem-estar e longevidade.

Os corpos velhos juvenilizados mostrados nas revistas, nas tvs e nas mídias sociais não são, portanto, corpos doentes, dramáticos e senis, de limitações e de imperfeições físicas. O corpo velho juvenilizado é transformado em mudanças de práticas corporais que buscam adiar, esconder, mascarar os sinais biológicos do envelhecimento. A boa aparência, a performace física, o desenvolvimento sexual são provas de ter um corpo jovem para os/as “ novas/ novos velhas/ velhos”.

No contexto em que o envelhecimento se transforma em um novo mercado de consumo não há lugar para a velhice, que tende a ser vista como consequência do descuido pessoal, da falta de envolvimento em atividades de lazer e de entretenimento, e da adoção de formas de consumo e estilos de vida inadequados. O declínio inevitável do corpo que não responde às demandas da vontade individual, é percebido como fruto de transgressões e por isso não merece piedade (DEBERT, 2004).

É possível elencar, segundo Goldenberg (2013), que o papel do corpo e da sua relação com o envelhecimento na cultura brasileira perpassa vários desdobramentos. Para a autora (2013), o corpo é um elemento crucial na construção de uma identidade nacional. No Brasil, o corpo é um capital, talvez o mais desejado pelos indivíduos das camadas baixas e médias urbanas; que percebem o corpo como um veículo fundamental para a ascensão social, e também como uma forma importante de capital no mercado de trabalho, no mercado de casamento, no mercado erótico, e de uma forma mais ampla, em toda a cultura de consumo (GOLDENBERG, 2013).

O corpo é um lugar de encenação, ou seja, não é mais a encenação irredutível ou a fatalidade ontológica que sustentava nossos processos identitários modernos, mas a construção pessoal, disponível para múltiplas metamorfoses, um objeto transitório e manipulável. (LE BRETON, 2003).

O culto ao corpo surge de múltiplas maneiras. Novos ideais e tecnologias para manter-se jovem surgem, e são incessantemente divulgadas e legitimadas. Ser jovem se converte em meta existencial. A concepção de velhice comprometida com percepções negativas, sombrias, passa a ser vista como inadmissível e intolerável. Na cultura contemporânea, ter o corpo velho é tudo aquilo que deve ser evitado e afastado dos corpos mostrados como espetáculo (DEBORD, 1997).

Os corpos velhos são ameaças constantes e o envelhecimento deve ser vencido, diariamente, por meio de múltiplas técnicas disponíveis para juvenilizar, revitalizar e turbinar o corpo. O corpo da cultura contemporânea é o corpo que se pauta pelo efêmero, pelo imediato, pelo excesso, pela sensualidade e sexualidade; caracterizado como porta-voz de forma e não de conteúdos, predominando a juventude, a aparência física, a visibilidade e o volume de músculos, a magreza excessiva e por todo um investimento performático, simbólico, econômico, estético e de saúde.

O corpo velho juvenilizado é o corpo reconstruído por cirurgias plásticas, implantes de substâncias químicas, que buscam incessantemente apagar da pele as marcas biológicas do tempo, apagar do corpo sinais de: rugas, manchas, celulites e tudo que possa representar um corpo velho, senil ou de qualquer ordem que não represente ser saudável ou bem sucedido, e, ao mesmo tempo, inscrever de forma física os sinais da corpolatria. O corpo velho contemporâneo é, em si, o próprio espetáculo, a busca pela eterna juventude. O corpo não pode ser apenas modificado, é preciso ser espetacularizado, midiatizado, transformado, reconfigurado, performatizado e juvenilizado, os signos do envelhecimento precisam ser vencidos e mascarados no dia a dia.

O culto ao corpo, ou cultura do corpo, ou consumo cultural, é a pratica do culto ao corpo que se coloca na cultura de consumo como uma preocupação geral, que perpassa todas as classes sociais e faixas etárias, apoiada em um discurso que ora lança mão da questão estética, ora da preocupação com a saúde, ora com a preocupação com a juventude (CASTRO, 2007).

Beauvoir (1990) explica que é por meio do olhar do outro que o indivíduo se percebe como velho. A cultura contemporânea é mediada por imagens, a todo instante o individuo é estimulado a consumir mercadorias. Com os avanços tecnológicos, a publicidade expande os meios de divulgação para a internet, as mídias sociais mais populares no Brasil como Facebook, Instagram, Twitter, Youtube, Whatsapp são as novas investidas das agencias publicitárias.

A cultura do corpo do idoso na velhice no Brasil é, hoje, um processo que tenta esconder os sinais do tempo e do envelhecimento dos corpos. Para atenuar a solidão, a falta de prestígio, a invisibilidade, alguns idosos adotam o comportamento sobre o modo de ter “corpo jovem”, através da juvenilização dos corpos, praticando esportes, vestindo-se na moda, frequentando salões de beleza, realizando treino funcional, centros de estética, fazendo reposição hormonal, realizando cirurgias plásticas e tendo diversos parceiros sexuais. Os e as velhas com corpos juvenilizados, criam e estabelecem novas práticas cotidianas de comportamentos, e constroem suas identidades, e seus estilos e modos de vida.

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Referências

BAUMAN, Z. Vida para Consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro. Zahar, 2008.

BEAUVOIR, Simone. A velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Tradução: Fernando Tomaz. 9 edição. Rio de Janeiro; Bertrand Brasil, 2007. 322 p.

CASTRO, Ana Lúcia. Culto ao Corpo: Identidades e Estilos de Vida. VII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. Coimbra/Portugal, 2004.

DEBERT, G. G. A Reinvenção da Velhice: Socialização e Processos de Reprivatização do Envelhecimento. São Paulo: Edusp/Fapesb, 2004.

DEBORD, G.A. A Sociedade do Espetáculo. Dispónivel em http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/socespetaculo.pdf. Acesso em 20 de fevereiro de 2019.

GOLDENBERG, Miriam. A Bela Velhice. 1ed. Rio De Janeiro: Record, 2013.

GOLDENBERG, Miriam. O Corpo Como Capital: Estudos Sobre Gênero, Sexualidade e Moda na Cultura Brasileira. 2 ed. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2010.

LE BRETON, David. Adeus ao Corpo: Antropologia e Sociedade. Campinas: Papirus, 2003.

LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

MATOS, Cássio Luiz Aragão. A Reinvenção do Corpo da Mulher Idosa: Imagens Corporais na Cultura Contemporânea. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal da Bahia (UFBA). Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos, 2015. 205 p. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/18384 (último acesso: 24 de fevereiro de 2019).

SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. História da Beleza no Brasil. São Paulo: Contexto, 2014.