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Olivio Jekupe...Como as Comunidades Indígenas estão se protegendo do Coronavírus

Olivio Jekupe...Como as Comunidades Indígenas estão se protegendo do Coronavírus Olivio Jekupe, escritor de literatura nativa da aldeia krukutu, povo Garani
Em 17/04/2020

Mantemos contato com Olivio Jekupe desde o início da semana (13  a 17 de abril) através do messenger. As vezes a conversa era interrompida pela queda do sinal da operadora na aldeia Krukutu, no estado de São Paulo, onde Olivio e sua família vivem e passam a quarentena isolados dos centros urbanos. Confira a entrevista e saiba como as comunidades indígenas estão se protegendo do coronavírus.


ASJ- Qual foi a primeira medida da sua aldeia para se proteger do Coronavírus?

Olivio Kejupe: Ficamos preocupados com o surgimento dessa doença, que chegou afetando a todos no mundo e por isso foi feito uma reunião aqui na aldeia explicando pra todos sobre ela e uma das questões que decidimos é que fiquemos aqui, e não ir pra cidade, a não ser nos casos mais necessários.

Sei que estamos num lugar calmo, pois vivemos no meio da floresta, nossa mãe protetora, sei que o oxigênio é melhor, longe da poluição, por isso nos sentimos felizes com isso, mas sei que na cidade muitos não respeitam a floresta e principalmente o isolamento criado pela Saúde, mas na verdade como nós vivemos na floresta, não mudou muita coisa, porque o principal é não ir pra cidade, para não pegar o vírus e trazer pra cá também.Nossas casas familiares são longe umas das outras, as vezes 500 metros de distância umas das outras



ASJ- O posto de saúde da comunidade está atuando de que maneira?

Olivio Kejupe: Temos um posto de saúde aqui na aldeia, que é muito bom, onde eles orientam a comunidade sobre como prevenir, sobre a importância de lavar as mãos e de não cumprimentarmos com as mãos.E sei que o estado de São Paulo é o mais grave do coronavírus, por isso estamos fazendo nossa parte para que essa doença não chegue aqui.



ASJ- E vocês tiveram acesso à vacina contra gripe?

Oivio Jekupe: Sim, aqui a equipe médica nos avisou sobre a vacina da gripe e todos estão vacinado e que é muito bom pra todos nós



ASJ- Você disse que a distância de uma casa para outra chega a 500 metros, como é feita a comunicação nesse momento de isolamento?

Olivio Kejupe: Nós temos celulares e podemos nos comunicar com outros parentes de outras aldeias do Estado ou outro, sei que nesse isolamento não é bom visitarmos os parentes de outras aldeias, e por isso aproveitamos o Facebook e whatszapp.



ASJ- Então, vocês mantém contato com aldeias de outros estados? Vi que recententemente os Yanomamis perderam um jovem de 15 anos pelo COVID-19. Você tem conhecimento de como está a situação das aldeias dos outros estados em relação ao coronavírus e que tipo de ajuda estão recebendo dos governadores de suas regiões?

Olivio Jekupe: Nós temos o Sesai que dá assistência nas aldeias mas sei que tem aldeias mais carentes, por isso precisam de muito apoio, mas como hoje temos Facebook, então sempre estamos acompanhando as notícias de aldeias pelo Brasil



ASJ - E quanto ao auxílio financeiro dado pelo Governo Federal, vocês tiveram acesso?

Olivio Kejupe: Bom, aqui várias pessoas têm o Bolsa Família e quando as famílias receberem vai ser muito bom, pois muitos vendem artesanatos e como não estão saindo nem recebendo turistas aí nada se vende e por isso o auxílio vai ser bom, porque temos um dinheiro pra comprar alimentos.



ASJ- O fechamento da escola na sua comunidade afetou a vida de vocês em que sentido?

Olivio Kejupe: Aqui temos uma escola do Estado mas está fechada e também o CECI, Centro de Educação e Cultura Indígena, também está fechado, mas com o fechamento afetou que as crianças começaram a ter mais dificuldade na alimentação, mas mesmo assim, a comunidade não parou e usou o escritório da associação Guarani nhe e piram e usou um fogão e comprou gás pra fazer comida para os mais necessitados.



ASJ- Com poucos estabelecimentos comerciais em funcionamento e com o isolamento na floresta, longe dos centros urbanos, como vocês estão tendo acesso à compra de alimentos?

Olivio Kejupe: Bom quando precisamos ir pra cidade sempre damos um jeito pois muitos vão a pé até onde pega o ônibus, uns 5 km de distância aí compra e vem com os alimentos, as vezes uns alugam carreto pra trazer até a aldeia



ASJ-  Existe preço abusivo na região? Como vocês lidam com isso?

Olivio Kejupe: Uma coisa que ficou ruim foi saber que o gás está sendo vendido por um preço absurdo, mas como nós já estamos acostado a usar fogão a lenha, então a gente está fazendo muito isso, pois fui comprar um e estava custando 150,00 reais, isso é um crime, pois num momento em que devíamos estar todos unidos, ainda roubam, já pensou se esses vendedores pegarem o vírus e morrerem, do que adiantaria ter ganhado dinheiro assim?



ASJ-  Já que você toca na ganância do ser humano, você acredita que esse momento que a Humanidade está passando com a pandemia é um ensinamento da natureza ao homem do século XXI, tão materialista e encantado pelo consumo?

Olivio Kejupe: Pois é, num momento tão triste como esse os brasileiros deviam se unir pra que isso passasse o mais rápido possível, onde um ajude os outros, mas a ganância do ser humano é pior que o coronavírus, e essa prática é algo assustador, isso nunca devia acontecer e muitos estão subindo tudo e nesse momento deviam vender mais barato e não como estão fazendo



ASJ-  Você profetizou esse momento em uma poesia escrita em 1999. Quando li tive a sensação de que era para esse momento que estamos vivendo. Você acredita que se o homem urbano tivesse mais contato com os ensinamentos indígenas, a natureza seria mais respeitada e preservada?

Olivio Kejupe: Nós indígenas acreditamos e respeitamos a floresta, e é preciso que a sociedade valorize_ porque doenças vem e vão e volta e nossa proteção é a floresta em todo o mundo. Destruir a floresta como fazem , chegamos a isso. Escrevi essa poesia em 1999, e gostaria de mostrar. Ela é do livro 500 anos de angústia.



Cansado

Eu estava tão cansado,

Então eu resolvi tirar uma

soneca.

Deitei ao lado de uma árvore.

Logo dormi e comecei

A sonhar com os Jurua Kuery.

Sonhei que a terra

Soltou uma grande peste.

E que matou muitos deles.

Fiquei até com pena,

Mas o que podia fazer

Se foi castigo da natureza?



Agora, depois de tudo que está acontecendo, espero que o mundo entenda que a floresta precisa ser mais respeitada e que todos plantem uma árvore, pois ela é nosso maior remédio pra vida e que protege o planeta.


Agradecemos imensamente sua colaboração!

Fotos autorizadas por Olivio Jekupe...


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