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Atitudes transformam realidades
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Somos

Somos
Em 21/05/2020

Todos estamos tendo tempo para nós mesmos durante essa pandemia. A correria do dia a dia, as atividades inacabadas, as festas e reuniões...tudo está estagnado. Não temos mais horários rígidos a serem cumpridos, prazos apertados para realizar um trabalho; tudo isso parou por este instante, como um relógio que sente sua bateria esgotar. Estamos tendo tempo para nossas famílias e para nós mesmos, e além de utilizarmos esse tempo para a faxina da casa, exercícios físicos, brincar com os filhos, vamos reservar um tempo para a faxina interior. Estamos tendo tempo para irmos ao nosso próprio encontro e nos conhecermos e nos avaliarmos melhor, sem ter que dividir essa tarefa tão difícil com as que inventamos para esse século tão competitivo e materialista.

Estamos longe do consumo, a atividade que consuma o materialismo a que nos permitimos entregar-nos, avaliado como a melhor forma de viver, como algo que faz o mundo dar certo. E que mundo é este que consideramos o adequado para viver? Que as autoridades enxergam como um bem-estar social? Que mundo é esse que construímos, que afoga-se na desigualdade, fome, guerras camufladas e discriminações religiosas, étnicas? Esse modelo de mundo é o ideal ? Não, não é, mas poucos se esforçam para mudar essas realidades pífias e dolorosas.

Estamos tendo a oportunidade de analisar o mundo sem tocá-lo tão ferozmente, como vínhamos fazendo; estamos tendo a oportunidade de tocarmos nosso íntimo, algo que esquecemos de fazer, porque tínhamos que construir esse mundo ideal, de correrias, competitividade e aquisições materiais. Permitamos a nós mesmos esse encontro mágico com nosso eu, e por mais assombroso que possa ser, só nos conheceremos e nos melhoraremos descendo as escadas que nos levam ao nosso subsolo interior. Lá estão as gavetas que necessitam da faxina, as gavetas que necessitam ser abertas e as que precisam ser fechadas. Que sejamos capazes de realizar essa viagem de extrema importância para a construção do verdadeiro mundo ideal, o mundo em que possamos nos olhar sem egoísmo e avareza, sem preconceito e indiferença.

Esse pequemo microorganismo que amedronta a Humanidade nesse momento, veio para nos revelar o quanto somos pequenos e que todas as conquistas materiais de nada valem quando sentimos o ar faltar nos pulmões e os caros planos de saúde não serem capazes de nos oferecer o tratamento adequado, tamanha a quantidade de pessoas que necessitam do socorro. Esta manifestação da natureza faz o homem do século XXI, que se proclamava gigante diante da mãe Terra, ajoelhar-se em seu solo, já tão devastado e destruído pela ação humana. Somos gigantes ajoelhados, fragilizados por algo que nem conseguimos enxergar.

Este é um momento de reflexão e o mundo globalizado que criamos começa a fechar suas fronteiras, para que o filho de uma nação não visite a outra. Seria o isolamento geográfico a solução para o que passamos? Caímos no individualismo, na desconfiança, quando devemos exercitar a fraternidade.

A pandemia veio nos alertar sobre as desvirtudes que construímos entre nós, veio nos abrigar em nossas casas para nos dedicarmos aos nossos filhos, pais, avós, ao invés das agendas cheias de compromissos, para nos dedicarmos ao próximo e também a nós mesmos. Ela nos faz um convite ao sofrimento porque dele adquirimos a maturidade, nos faz um convite à reflexão, porque dela examinamos melhor nossos pensamentos, sentimentos e ações.

Nos tornamos gigantes materialmente não moralmente, pois o homem ainda custa alcançar o ápice do moral e construir o mundo ideal, onde todos vejam-se pertencentes a uma única nação, chamada Humanidade - uma nação em que todos reconheçam a igualdade dentro da imensa teia da diversidade que é capaz de abrigar. A ética está no respeito ao que é diferente de você, na convivência harmônica com quem tem um comportamento contrário ao que você carrega. A diversidade carrega algo fantástico, pois nela podemos ver seres humanos de diversas cores, olhares, sorrisos e comportamentos; não aprendemos, no entanto, a enxergá-la em sua essência e consequentemente não enxergamos a sua beleza.

Esta pandemia vem nos dizer o quanto somos iguais nessa imensa diversidade, e que nações que se consideram superiores sofrem tão quanto as ditas pobres e inferiores, que os brancos morrem da mesma forma que os negros e índios e os ricos da mesma forma que os desafortunados de dinheiro. O microorganismo que amedronta a todos, nos revela o quanto somos cegos e incapazes de enxergar a igualdade de que todos fazemos parte, a igualdade ontológica da existência, a de que perante a natureza não há distinção entre os seres. Quem criou essas distinções, ao londo da história, fomos nós mesmos __ as distinções carregadas de preconceitos, sejam elas étnicas, religiosas, sociais.

Somos “gigantes” arrogantes ajoelhados diante da natureza, que se manifesta para deixar explícita a nossa ganância, a nossa ignorância, prepotência e pequenez. Ela não vem nos afrontar, mas nos alertar sobre quem somos e que de tempos em tempos precisamos parar tudo, todos os afazeres materiais para refletirmos sobre o que realmente é essencial para a vida.

Maíra Bahia

Idealizadora do Atitude Social Já